Rádio Marginal

25/10/09

Estádio da Machava - Maputo


Estádio da Machava (antigo Estádio Salazar)

Do Lumbo e lapala, em Nampula, a Ressano Garcia, em Maputo; de Quelimane, na Zambézia, a Moatize, em Tete; passando por Nova Freixo (hoje Cuamba), no Niassa, Inhaminga, em Sofala, e Gondola, em Manica, perfilam e ou perfilavam os mais funcionais e os mais conseguidos empreendimentos desportivos de Moçambique.

Mas a "jóía da coroa" ferroviária, incarnada num estádio, de futebol, estava implantada , nos arredores de Lourenço Marques - o actual estádio da Machava que nasceu com o nome de Salazar. Efectivamente, o dia 30 de Junho de 1968 constitui um dos marcos mais importantes da já longa e brilhante história da família dos ferroportuários de Moçambique, sobretudo os ligados ao desporto de uma forma geral e muito particularmente os que têm no futebol a sua modalidade predilecta.

Foi naquela data que com pompa e circunstância o Clube Ferroviário de Moçambique pulverizou a sua grandeza institucional e a hegemonia desportiva, que na época já detinha, com a inauguração do seu estádio de futebol baptizado com o apelido do então chefe do governo português, António de Oliveira Salazar. Na altura da sua inauguração e durante muito tempo, o Estádio Salazar era o maior e, talvez, o mais bonito complexo desportivo aberto do então ultramar português e um dos mais conseguidos ao nível de todo o continente africano. Pergaminhos que poderia ter mantido até aos dias que correm se o projecto inicialmente concebido tivesse sido concretizado na sua totalidade e quiçá se as autoridades do Moçambique independente, a partir de 1975 quando começa a degradação definitiva do estádio, o tivessem assumido, face à sua importância no tecido desportivo e social do país.

Machava, no lugar de Salazar, foi o único benefício que o estádio teve no período pós-Independência! O resto, é a imagem desoladora que o empreendimento apresenta. Pelo seu actual estado, nem parece que foi ali o local da proclamação da Independência Nacional, para a qual muito contribuiu a classe dos trabalhadores dos Caminhos de Ferro. Uma classe, cujos membros neste caso particular derramaram sangue e suor, assim como deixaram de economizar alguns “centavos” para erguerem mais uma obra que simbolizava o orgulho dos moçambicanos e a grandeza patrimonial do maior e o mais abrangente sector produtivo de sempre - os Portos, Caminhos de Ferro e Transportes de Moçambique. Quando foi inaugurado, a lotação oficial do estádio era de 32.180 lugares sentados, podendo a pista de ciclismo ser convertida em sector do peão com uma capacidade para albergar 20 mil pessoas. Na altura, para além da sua beleza arquitectónica, o estádio já respondia a todos os valores impostos pelos organismos desportivos internacionais, nomeadamente, a FIFA (dimensões do relvado e iluminação), .Federação Internacional de Atletismo (a pista da modalidade) e a União Internacional de Ciclismo.

No projecto inicial, para além dos aspectos mencionados, o estádio fora projectado e dirnensionado físico- técnicamente para servir um aglomerado de 500 mil pessoas, das quais, 96.540 sentadas corresponderiam à sua lotação no concernente a assistência para os jogos de futebol, uma vez que previa-se a construção de um segundo anel de bancadas. E as restantes pessoas distribuídas por uma área de 500 metros quadrados ocupados por um imóvel com três pisos coberto de um centro de acomodação (quartos e camarotes), serviços sociais, balneários, vestiários, posto médico, salas de jogo, restaurantes, etc. Ainda sobre o parque desportivo ferroviário, importa referir também que se deve ao CFVM o primeiro campo de futebol digno desse nome em Moçambique - o actual campo do Ferroviário das Mahotas, em Maputo, inaugurado 35 anos antes da abertura do estádio da Machava, em 1933, com o nome do seu principal Engenheiro, Marcial de Freitas e Costa.

A história cronológica do estádio
O processo de construção do Estádio Salazar começa com a publicação da Portaria N.O 15427, no Boletim Oficial N.O 45 - I Série, a 11 de Novembro de 1961, a qual concedia ao Clube Ferroviário de Moçambique um terreno no vale de Infulene, na área da Machava, com uma área de 31 hectares a fim de ali ser construído o seu estádio de futebol. Era o princípio da concretização de uma das mais sublimes aspirações dos ferroviários de Moçambique.

À área inicial foi mais tarde adicionado um terreno contíguo de 23 hectares concedido ao CFVM pelas autoridades municipais da Matola, que visava um mais desenvolto planeamento de parques para automóveis e um arranjo urbanístico mais conseguido da zona. Para esta concessão, muito contribuíram as influências do Almirante Manuel Maria Sarmento Rodrigues e do Comandante Vasco da Gama Rodrigues, respectivamente governadores geral de Moçambique e do distrito de Lourenço Marques.

Adquirido o terreno, o Conselho de Administração dos Caminhos de Ferro de Moçambique, de que era então Administrador-Delegado o engenheiro Horácio Avelino Brazão de Freitas, naquilo que foi considerado uma manifestação sem par na história da empresa, aprova a 10 de Abril de 1962, pela sua deliberação N o 227, o anteprojecto do estádio e concede ao CFVM a primeira tranche financeira para o arranque das obras. Em finais de 1962, ficaram concluídos os trabalhos de topografia necessários à elaboração do projecto definido para a implantação da obra e, em 29 de Junho de 1963, foi iniciada a terraplanagem do local, num trabalho necessariamente esgotante e moroso e para o qual, de acordo com as crónicas da época, se escolheu pessoal dedicado que, à oferta do seu esforço, juntasse o espírito de sacrifício e entusiasmo.

Aos esforços hercúleos, os ferroviários, sobretudo amassa associativa do CFVM, conscientes da grandeza da obra que se ia erguer e da sua utilidade em benefício do Desporto em Moçambique, adicionaram a sua generosidade contribuindo com uma quotização mensal suplementar, para além de organizar várias manifestações, nomeadamente, quermesses, churrascos, representações, serões musicais, festas, rifas e outras, para a angariação de fundos. Em meados de 1965, sempre com o interesse e o estímulo, quer do governo, quer do Conselho de Administração dos CFM e dos dirigentes do desporto em Moçambique, expressos através de palavras e do próprio acompanhamento das obras, iniciou-se a construção das bancadas sob a orientação do chefe do serviço de via e obras, o Eng. Domingos Vaz, e foi lançada a relva sobre o espaço projectado para ser o rectângulo do jogo..

A 29 de Maio de 1966, a obra que prosseguia sem quaisquer desfalecimentos é visitada pelo Governador- Geral Costa Almeida e, a 6 de Outubro do mesmo ano, a Assembleia-Geral do CFVM, por aclamação decide atribuir ao seu empreendimento o nome de Estádio Salazar, em homenagem ao chefe do governo português, António de Oliveira Salazar. E, em Junho de 1967, é o ministro do Ultramar, Silva Cunha, que ao visitar Moçambique, procede ao fecho simbólico das bancadas do 1°anel do estádio, as mesmas que permanecem até aos nossos dias. 1967 foi também o ano em que estando as obras na fase dos acabamentos, o CFVM decidiu marcar para 30 de Junho de 1968 como a data de inauguração do estádio, ao qual se seguiu a constituição de uma comissão incumbida de organizar o programa da cerimónia da inauguração, de forma a corresponder ao valor da obra e ao nome do seu patrono.

Uma das primeiras iniciativas da comissão foi a de, com autorização da Federação Portuguesa de Futebol, convidar o Brasil a comparticipar na cerimónia com a sua selecção nacional "A" de futebol, que defrontaria a sua congénere de Portugal, uma reedição da partida disputada entre as duas equipas na fase final da Taça do Mundo de 1966 na Inglaterra, na qual os portugueses derrotaram os seus irmãos do outro lado do Atlântico por 3-1, numa tarde de glória dos moçambicanos Eusébio da Silva Ferreira, Mário Esteves Coluna, Vicente Lucas e Hilário da Conceição. Deste grupo, apenas Coluna e Hilário integraram a equipa portuguesa que jogou no estádio Salazar naquilo que, na sua história, foi a primeira deslocação da selecção nacional "A" de Portugal ao então Ultramar. Na óptica dos organizadores, associar os brasileiros à cerimónia não só se procurou garantir antecipadamente o êxito no campo desportivo (dada a extraordinária categoria dos seus futebolistas), como também procurou dar ao acontecimento o simbolismo e a projecção que se impunham. Paralelamente ao trabalho desta comissão baseada em Lourenço Marques, havia uma outra que, formada por nomes sonantes da vida pública portuguesa, funcionava em Lisboa na resolução das muitas questões que a envergadura da organização exigia.

Três meses antes da data marcada para a inauguração, em Março de 1968, os CFM despacham para Lisboa uma importante delegação que, entre outras figuras, integrava o director dos serviços dos Portos, Caminhos de Ferro e Transportes de Moçambique, Eng. Fernando Seixas, e o Inspector superior da empresa, Eng. Francisco dos Santos Pinto Teixeira, com a missão de, pessoalmente, convidarem o presidente da República Portuguesa, Almirante Américo Tomás, o Presidente do Conselho (Chefe do .Governo), António de Oliveira Salazar, e o ministro do Ultramar, Silva Cunha, a assistirem à inauguração do estádio do CFVM. Entretanto, nenhuma das figuras convidadas compareceu, mas cada uma à sua maneira fez-se representar na cerimónia. Salazar enviou uma mensagem sonora que foi transmitida às mais de 50 mil pessoas pela instalação sonora no estádio e à uma significativa parte da restante população de Moçambique pelas antenas da rádio. Américo Tomás e Silva Cunha fizeram-se substituir pelos Subsecretários de Estado do Fomento Ultramarino e da Juventude e Desportos, respectivamente, Rui Patrício e Pinto Serrão.

Assistiram igualmente à cerimónia altos membros dos governos e das empresas dos Caminhos de Ferro e Transportes da África do Sul, do Malawi e da Swazilândia, para além de representações administrativas e desportivas dos restantes territórios africanos sob a administração portuguesa e de jornalistas de imprensa, rádio e televisão dos quatros cantos do Mundo. Aliás, foi o primeiro acontecimento desportivo ocorrido no chamado ultramar português de maior mediatização internacional e de maior mobilização humana e material. Na verdade, a 30 de Junho de 1968, a então cidade de Lourenço Marques foi a encruzilhada de todos os caminhos -de tódos os pontos de Moçambique, gente dos países vizinhos e de outros cantos da terra misturaram-se com os "Iaurentinos" na mais fantástica e impressionante aglutinação de cidadãos de diversas origens de que há memória em manifestações desportivas ocorridas na capital moçambicana. O grande ausente nos acontecimentos que assinalaram a inauguração do estádio Salazar foi o então Governador-geral de Moçambique, Baltazar Rebelo de Sousa, que na altura se encontrava em Lisboa onde, entretanto, não deixou de se deslocar ao local do estágio da selecção portuguesa para encorajar os seus jogadores ao mesmo tempo que os desejava uma boa estada em terras moçambicanas, assim como enviou um telegrama de felicitações e de encorajamento ao CFVM.

Sousa Dias, o homem do estádio
Muitas foram as figuras que, de uma forma ou de outra, directa ou indirectamente, contribuíram para que se tornasse uma realidade o Estádio.

Diga-se mesmo que todos os ferroviários, em geral, e tantos outros que, o não sendo, na obra empenharam o melhor do seu esforço e do seu entusiasmo.

Naturalmente, entre todos os ligados ao processo, surge de pronto o nome do Eng. Albano Augusto de Sousa Dias, o "homem do estádio", aquele que tornou o sonho realidade, mercê de um esforço gigantesco e de uma tenacidade de ferro.A família dos ferroviários não deixa, entretanto, de enaltecer algumas figuras do governo colonial, aos níveis do chamado Portugal continental e de Moçambique, que desde a primeira hora secundaram o interesse e a acção do Conselho de Administração do CFM, que vivamente apoiou a construção em projecto, ao empreendimento dedicaram o melhor do seu carinho e da sua valiosa ajuda.

ALBANO DE SOUSA DIAS, que foi presidente do CFVM, faleceria 27 dias após a inauguração do estádio - a sua obra.

in: http://www.sislog.com/ferroviario/article.php3?id_article=47

OBS: Esta pequena resenha do Estádio da Machava e do homem que o fez nascer tem uma história pouco conhecida por tráz. Foi-me contada há uns anos por um amigo e colega, Manuel Parente, um laurentino muito ligado ao desporto e ao Malhanga e que vos passo a contar. Albano de Sousa Dias intentou construir o Estádio e moveu céus e terra para conseguir apoios financeiros e administrativos suficientes para tal.
No dia da Assembleia Geral para se atribuir o nome ao Estádio, numa sala cheia de apoiantes e homens ligados ao desporto Moçambicano e ao Ferroviário pretendia-se homenagear o homem que tornou possivel a edificação do Estádio, atribuindo-lhe o seu nome. Uma merecida homenagem, diga-se.
Mas... por vezes há sempre um mas nestas coisas... alguém ao fundo da sala se levantou e ainda antes de poderem apresentar o nome de Albano Dias, aventou o nome com que foi batizado: Estádio Salazar.
Está bem de ver que não houve contestação, toda a Assembleia emudeceu e assim ficou o nome que viria anos depois a ser mudado para Estádio da Machava.
O Eng. Albano Dias pouco mais viveu após a inauguração e o seu nome, o nome de quem teve o sonho de fazer à época o maior estádio Africano acabou por se esfumar nos dias do tempo.
Enfim... malhas que o Império também tecia.

3 comentários:

abel disse...

Começo por agradecer a oportunidade que nos dão por conhecer um pouco da história desse maravilhoso Estádio, este sim, a Catedral do Desporto.O dia 30.06.1968 ficou para sempre marcado na minha memória. E eu com 14 anos de idade, acompanhado pelos meus pais e irmãos lá fomos todos para o Estádio com o respectivo farnel quando ainda faltavam mais de 8 horas da inauguração oficial. Outros momentos recordo também. Lembro-me das grandes manifestações em que tive oportunidade de participar como aluno da Escola Joaquim de Araújo nos dias 10 de Junho. Foi também ai que assisti a grandes provas desportivas, nomeadamente, futebol,ciclismo e atletismo.
Coimbra,25.10.09
Abel Barros Santos - Aluno Salesiano da Missão S.José Lhanguene - Maputo.

Alencoão disse...

Abel, obrigado por nos leres.

Anónimo disse...

Alencoão, cá está o que me perguntaste. Não sabia este teu resumo final da atribuição do nome. Mas caro amigo, isto é como dizes, por isso eu politico pouco. Dou-lhes na cabeça. Pouco importa o nome, interessa a obra. O contrário também acontece; Ponte 25 de Abril. Bem hajas 25 de Abril que nos deste tantas coisas...
Um abraço